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O Corpo de Veterinários das Forças Armadas francesas


O nascimento da Medicina Veterinária militar francesa confunde-se com o próprio nascimento da Medicina Veterinária moderna como a conhecemos, e acontece quando os primeiros alunos da Escola Militar Real de Veterinária de Alfort foram recrutados em 1769.

Estes primeiros Médicos Veterinários eram formados e empregados basicamente em Regimentos de Cavalaria e apesar de sólida formação técnica, por longo período, mais precisamente até 1883, os Médicos Veterinários militares tiveram sua patente classificada fora do oficialato e esriveram subordinados tecnicamente e disciplinarmente a Oficiais com reconhecida prática com animais, o que, como colocado por Milhaud (2003) “será uma fonte de infindáveis ​​conflitos prejudiciais ao desempenho destas formações”.

Ainda nos primórdios da Medicina Veterinária militar francesa o isolamento e a incapacidade de compartilhamento de experiências técnicas são identificados por estes profissionais como sendo prejudicial e então entre 1791 e 1815 a figura central dos Inspetores Gerais é criada. Inicialmente em número de quatro para todo o Exército, estes cargos são inicialmente ocupados por Médicos Veterinários professores de instituições de ensino  (MILHAUD, 2003).

Em 1843 é criada a Comissão de Higiene Hípica, em substituição aos Inspetores Gerais, mas que até 1878, não conta somente com Médicos Veterinários em cargo de chefia. Neste ano então, são criadas estruturas regionais denominados Ressorts Vetérinaires e com os adventos do oficialato até o posto de tenente coronel em 1884, do posto de coronel em 1902 e do cargo de General Veterinário em 1915 ocorre a consolidação da posição hierárquica paritária e supervisão técnica das atividades realizadas exclusivamente por Médicos Veterinários  (MILHAUD, 2003).

A partir das campanhas coloniais na África no século XIX as capacidades do Médico Veterinário para além da saúde animal ficam evidentes, já que em países como Marrocos e Madagascar a prevenção de enfermidades infecciosas, a inspeção de alimentos para consumo das tropas e o fomento da indústria pecuária das colônias são papéis desempenhados pelos Médicos Veterinários militares desdobrados nestes países (DAVIS, 2006).

Dentro desta mentalidade, com o início da motomecanização do Exército no princípio do século XX, a medicina equina perde importância e várias outras capacidades dos Médicos Veterinários começam a ser valorizadas: o estudo e prevenção de ataques perpetrados com agentes biológicos, fomentado pela criação em 1920 do Laboratório de Investigação Veterinária Militar (em Alfort), que tem esse intuito; a garantia da qualidade dos alimentos a serem consumidos pela tropa, tendo em vista a importância das capacidades de movimento e força das tropas militares, aliados aos imensos teatros de operações da 2ª Guerra Mundial e a consequente necessidade do estoque massivo de alimentos e; por fim, os cuidados sanitários e médicos dispendidos aos cães de trabalho, empregados inicialmente pelo Exército Alemão, mas extensamente utilizados por quase todos os países participantes do conflito (MILHAUD, 2003).

No pós-guerra, os Médicos Veterinários militares trocaram de subordinação várias vezes e como destaca Milhaud (2003), estiveram “em busca de sua identidade”. De 1945 a 1961 estiveram subordinados ao Departamento de Saúde do Exército e como relata o próprio autor, os Médicos Veterinários deste período estiveram sobre várias influencias, muitas vezes contraditórias: sejam elas das tradições ligadas aos equinos e a Escola de Samur, escola secular de formação veterinária militar; do rápido desenvolvimento da cinotecnia, ligado aos conflitos de descolonização, e que levou o Exército a empregar Médicos Veterinários em situações operativas dificilmente compatíveis com as exigências dos Serviços de Saúde, sob a proteção da Convenção de Genebra; e por fim dos estudos acadêmicos nas áreas de microbiologia e radiobiologia ligados ao Laboratório de Investigação Veterinária Militar.

Após conflitos internos e a combinação de fatores políticos, é criado então o Serviço de Biologia e Veterinária do Exército em 1961, que moderniza as Missões da Medicina Veterinária militar francesa e cria vários órgãos de pesquisa, ensino e execução como o Centro de Biologia Experimental (em Tarbes), o Centro de Estudos e Produção Biológica (em Compiègne), o Laboratório de estudos de golfinhos (em Biarritz), o Centro de Produção e Condicionamento de Animais de Experimentação (em Souges) e a Escola de Cães.

Apesar desta modernização, Milhaud (2003) relata que o Serviço de Biologia e Veterinária é vítima da dispersão de suas atividades, do isolamento geográfico e científico de suas unidades e é extinto em 1967. Após a relativa “euforia da autonomia”, os Médicos Veterinários militares franceses passam a subordinação direta do Estado Maior do Exército, têm suas missões continuadas e ainda administram o pessoal e as atividades técnicas ligadas a Medicina Veterinária, entretanto, a maioria das estruturas técnicas, grupos veterinários e laboratórios é dissolvida.

Já em 1978, após extensa transformação das Forças Armadas francesas, os Médicos Veterinários militares são incluídos no Serviço de Saúde das Formas Armadas, entidade ligada diretamente ao Ministério da Defesa e a atividade sofre intensa modificação, passando a ser comandadas por um Médico Veterinário denominado General Veterinário  Inspetor, com prerrogativas de um general de divisão, como mostra a última figura. Neste novo contexto o Centro de Instrução de Formação Veterinária (Campiège) é dissolvido e os Médicos Veterinários passam a ser formados na Escola de Aplicação do Serviço de Saúde Militar (Paris), sendo que as missões da Medicina Veterinária militar francesa hoje compreendem a higiene dos alimentos e saúde coletiva, a redução dos riscos zoonatinários e fitosanitários, a saúde animal, o assessoramento e formação científica e o apoio a operações no exterior.

Médico Veterinário francês realizando controle da qualidade de alimentos no Afeganistão em 2008


Postos dos Médicos Veterinários dentro do Serviço de Saúde das Forças Armadas


Referências:

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